Textos do Hugo

À cada dia, o seu estardalhaço

De repente, um berro.

E não era um berro qualquer, era um berro voraz e perigoso. Olhei para trás, para os lados, para o alto e até para as estrelas… Quem seria? Como se não bastasse, escutei outros berros que surgiam dos cantos mais inimagináveis, e todos eles gritavam seus estardalhaços violentos, numa incrível e costumeira sanha que abraçava e amarrava os corações daquela gente toda.Gente que vivia pelas ruas desse mundo tão singular e misterioso… Um mundo no qual tive a coragem descompensada de nascer. Vociferavam uns contra os outros. Intolerantes que eram, acusavam-se de intolerantes e quanto mais repudiavam a intolerância alheia, mais nutriam a intolerância própria.

Espantei-me. Tentei encontrar um canto qualquer onde me esconder para não ser atingido pelas rajadas de chiliques que cortavam o ar como flechas traiçoeiras e venenosas. Não encontrando local seguro, decidi simplesmente observar. Ao observar, passei a rir. Não porque achava uma graça infame, mas porque a meu ver as bulhas eram tão surreais ao ponto de escancarar uma absoluta verdade: A ilusão… Ilusão que curiosamente não passa de visão simplória e parcial da verdade.

Nada tão sedutor, intrigante e lamentável como o coração humano. Todos gritam… A plenos pulmões… Gritam seus dissabores, suas dores, suas alegrias e seus amores… Também os desamores… As solidões… Ainda que rodeados por gente… Todos gritam… Todos estão surdos. E enquanto não abrirem os ouvidos sujos para o sentido verdadeiro da vida, continuarão a gritar suas convicções estapafúrdias e violentas.

Amargurados pelo fel de ser quem são…

E os estardalhaços são tão ávidos e estridentes e contagiosos que se esquecem do valor incalculável do silêncio. Talvez se houvesse uma lei universal onde o silêncio fosse ato obrigatório nas primeiras horas do dia, para que refletíssemos a respeito dos erros cometidos no ontem, a fim de evitá-los no hoje. Talvez… Talvez se um longo e bem pensado silêncio precedesse a palavra escolhida a dedo nos armários da mente. Talvez tudo seria diferente. Mas não é.

Então fecho as janelas como quem precisa ler e depois dormir um bom sono, mas lá fora gritam as gralhas que precisam fazer ninho sobre o forro do meu quarto. Quanto mais eu silencio e me concentro na leitura que liberta o pensamento, mais elas voam, revoam e gritam sobre o teto. Dou mais um risinho e o sono vem. Fecho o livro e durmo. Os estardalhaços findam. Não podem atingir quem não admite ser atingido. Derrotadas, as gralhas voam para outros forros e tetos mais frágeis… Voam com suas gritarias e violências, com seus dramas exagerados, suas dores inúteis e suas intolerâncias descabidas… Mas ainda assim não conseguirão incomodar mais ninguém, pois jamais se esquecerão da dor de terem sido ignoradas. E caladas.

Por Hugo Ribas

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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