Textos do Hugo

A irremediável crônica

Sempre que os arranhões da dor de garganta assombram o meu despertar, eu logo penso nos tormentos da faringite crônica. Inevitável e invencível, ela é crônica… Vem e vai quando bem entende e nem manda telegrama avisando que está para chegar. Simplesmente chega. E é entrona, mal educada e invasiva.Assim como tudo que é crônico e irremediável. Não tem jeito a não ser aceitar, tomar uns xaropes, ir ao médico… Simplesmente suportar… Isso me faz pensar em como vivemos de suportar. Suportamos a rotina, o desagradável, os conselhos cretinos, as receitas de felicidade… Suportamos a crueldade alheia, o recalque alheio e o recalque próprio também! Sim, porque não há no mundo pessoa livre de recalque próprio. Fala-se muito em amor próprio, mas ninguém pensa em tratar o recalque próprio. Suportamos a obrigação de ser feliz, a obrigação do sucesso, a necessidade do brilho, do ter, do ser, da conquista. Suportamos a família que espera isso e aquilo de nós, quando na verdade não deveriam esperar nada, pois qualquer tipo de espera não faz sentido algum. Errado, tudo está errado. Suportamos a angústia da expectativa. Nessa nossa era das redes sociais, vivemos de esperar o pontinho vermelho no canto superior da tela avisando: Tem novidade! Suportamos. E esse suportar a que me vejo obrigado todo dia, ao que me parece, tornou-se crônico.

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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