Textos do Hugo

Chamamento

Um fio de cabelo castanho-claro. Não tem mais que dez centímetros… Putz, é meu. Certeza, esse fio de cabelo é meu. Sacudo o travesseiro e mais uns três fios de cabelo castanho-claro flutuam pelo ar… São meus também.
Bom, beleza, vou até o banheiro, lavo o rosto, escovo meus belos e alinhados dentes, dou uma ajeitadinha nos cabelos. Alguns fios de cabelo castanho-claro surgem, flutuantes como pluma… Alguns pousam por sobre a pia e grudam por conta da umidade. Abro a torneira, encho as mãos de água, jogo em cima dos fios de cabelo castanho-claro e assisto sua derradeira jornada no rumo do ralo.
Meus cabelos estão caindo.
Lembro de quando eram bem lisinhos e brilhantes. Eram muitos, e não caíam. Eu tinha orgulho dos meus cabelos…
Agora que vivo a fase intermediária onde não sou nem tão jovem, nem tão adulto, muito menos velho, meus cabelos começam a sinalizar um fato implacável: A passagem do tempo.
Não posso olhar para trás, senão me transformo em estátua de sal.
Se olhar para frente, vislumbrarei um futuro completamente careca.
Cabelo caído é chamamento. Sou chamado todos os dias para a sobriedade e responsabilidade… A minha indesejável calvície me incita a ser bom exemplo.
Cabelos que caem, barba feita, devo ser um homem de sucesso. Ou então serei subestimado, fracassado, mal olhado… O que eu sou? Pouco importa… O que vale é que já estou calvo, em breve estarei careca… E isso significa: Maturidade.
Continuo fingindo que meus cabelos não estão caindo.

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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