Textos do Hugo

Das saudades que tenho e das que ainda vou ter

Saudade, definida como: Recordação suave e melancólica de pessoa ausente, local ou coisa distante, que se deseja voltar a ver ou possuir.
A ausência, o distante, o inalcançável. O que já não pode mais ser meu… Ou talvez o que nunca foi meu. Tolo engano daquele que pensa possuir qualquer coisa, pessoa ou espaço, porque será contrariado pelo implacável passar do tempo. Certa vez, um personagem criado por mim mesmo, disse: “Saudade não aperta, nem existe. Nós a inventamos. É impossível sentir falta de algo que já não existe mais.”

Eu discordo, confesso que me espantei quando eu mesmo escrevi tal frase, e então pensei: Não, a saudade não pode ser algo simplesmente inventado… Basta colocar uma música. O suave toque do piano, a melodia cantada na voz inconfundível, o viajar na lembrança do que não voltará mais. Sim, ela existe, e posso senti-la aqui dentro do peito quando ouço aquela música que minha mãe e eu cantávamos juntos na varanda de casa, noite de calor, eu ainda garoto pensando que a vida seria feita só de alegrias. A saudade existe quando escuto a melodia piegas que me faz reviver a sensação da primeira paixão, aquele amor para a vida toda que disparava meu coração em toda sua inocência… Posso ver a tal da saudade aproximando-se de mim, imagem perfeita de melancolia, quando canto a mesma música que minha avó cantarolava enquanto costurava sem parar. Férias, infância, ingenuidade e ilusões.
A música e o seu estranho poder de fazer nascer tal sentimento.
Às vezes me pego pensando num outro tipo de saudade. A saudade que ainda virá, aquela que chega de repente, agressiva, no exato momento em que alguém parte para uma viagem sem volta. Às vezes olho para os que estão ao meu redor e penso na saudade que inevitalvelmente vou sentir: Aquela dolorida e amarga… A única saudade que ninguém quer ter, mas que todos seremos obrigado a sentir, sem chance de fuga.

Penso então que seria melhor ignorá-la. Fazer como aquele tal personagem que, sei, tinha saudades também e inventava teorias absurdas como tentativas vãs de esconder as vivas lembranças que rondavam sua existência. Penso… Só penso… No entanto sei que é impossível tentar, porque sentir a ausência, dar falta daquilo que já passou ou desejar que o tempo volte atrás, é sinal de que estou vivo. Meu sangue corre em minhas veias, pulsante, provando por A+B que um homem que não sente saudade não achou sentido nas coisas simples da vida. O homem que não sente saudade, não viveu pequenas alegrias… O homem que não sente saudade, é um homem morto.

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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