Textos do Hugo

Encontro com o Ano Novo

Ao contrário do que muitos pensam ele não chegou de branco, não… Chegou de preto. Cor de cegueira, cor de mistério, cor de indefinição. Chegou debaixo de chuva, abriu a porta de um jeito esbaforido. Bateu o chapéu encharcado, abandonou o casaco sobre a cadeira e abriu os braços.
Ele queria me dar um abraço.
Recuei. Por que diabos eu o abraçaria?! Afinal de contas, ele estava de preto… Cor de funeral, de azar, de sofrimento…
Tratei de fingir que não o vi.
Ele insistiu, veio atrás.
-Ora, dê-me aqui um abraço.
Então olhei em seus olhos e enxerguei minha própria imagem refletida. Havia ali um alguém amedrontado e cheio de receios. Alguém que chegara ao miserável ponto de recusar abraços.
Fiz que não, tal qual uma criança que ainda não sabe pronunciar palavras, mas sabe muito bem a diferença entre desejo e rejeição.
-Por que me olha assim? -indagou.
-Por que está vestido de preto? -retruquei,
-Não me julgue, caro amigo. -prosseguiu ele, esfregando uma toalha velha no rosto molhado. -Tomei a maior chuva e estou aqui sorrindo. Olhe para você, pijaminha, cabelos penteados, protegido da chuva e com cara de quem tomou café com sal.
-Não confio em gente como você.
-Eu bem sei… Meus antecessores não cumpriram com o prometido… Mas me responda, você acreditou nas promessas que eles lhe fizeram?
-É evidente que não.
-Então… -e me deu tapinhas nos ombros. -Para que cumprir promessas desacreditadas? Faça o seguinte, confie na promessa que te faço e ela se cumprirá. É muito simples. Prometo que terá ao menos um motivo para sorrir, e isso já será o suficiente para que valha a pena.
-Perfeito. Combinado.
-Agora abrace-me.
Fitei seu jeito singelo. Os olhos eram verdes, verde esperança.
Abracei-o. Sorri sem me dar conta. Sorri.
Valeu a pena.

Por Hugo Ribas.

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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