Textos do Hugo

Segunda-feira, a renegada

Muito que bem, eu e minhas velhas e enfadonhas reflexões a respeito dos “sim’s” que sou obrigado a dizer, mesmo que não o queira.

Vejo que os humanos sofrem do “mal da segunda-feira”. Inclusive é moda rejeitá-la, coitada. Acuada, logo atrás do deprimente domingo, ela entra em pânico toda vez em que chega a sua vez de suportar os desvarios da sociedade.

Os bombardeios começam logo cedo, quando são atirados contra ela os memes afiados, denegrindo e ferindo sua imagem. Horas depois é fuzilada pela culpa. O trânsito é culpa da segunda. A enxaqueca é culpa da segunda. O diretor arrogante é culpa da segunda. A aula de química é culpa da segunda. A chuva é culpa da segunda. O acidente é culpa da segunda. A merda que fiz da minha vida é culpa da segunda, inclusive as minhas piores e decadentes decisões foram tomadas numa segunda-feira. Enfim, a segunda é tratada como a típica estraga prazeres… Chega na festa e acaba com a graça dos convidados, peida na mesa, faz a piada sem graça, revela as verdades ocultas na hipocrisia da simpatia e ainda entope a privada antes de ir embora. Sim. Segunda-feira, a renegada.

-Eles precisam de alguém em quem despejar a revolta por terem sido obrigados a existir. Eu fui a escolhida. -diz ela, com ares de mártir.

É sim. É isso mesmo. Em conversa com ela, semana passada, chegamos juntos à esta conclusão. Segunda-feira, sempre compreensiva e muito sábia, explicou-me que os homens padecem de suas escolhas impensadas, frutos de ímpetos descabidos, interesses e ilusões. Gostam, precisam e optam pelos padrões, senão serão reduzidos cruelmente ao papel de inadequados…

-Você há de convir comigo, meu caro, que eles sofrem de uma cegueira irreversível. Nascerão e morrerão me odiando, sem perceber que quando me rejeitam, rejeitam seus próprios sonhos. -concluiu, toda sabedoria.

Calei-me.

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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