Textos do Hugo

Um sentimento que não se tem

Descobri que tenho verdadeira adoração por dicionários. Acho impressionante o dom especial que eles tem de dar significado às palavras, sem medo de condenações e julgamentos… A forma verdadeira com que definem tudo é tão absoluta, que nunca vi alguém erguer um dedo sequer para protestar contra qualquer sílaba colocada em suas páginas.
São admiravelmente audaciosos.
Certo dia abri um deles, assim de forma aleatória, e me deparei com intrigante significação: “Vício que consiste em aparentar uma virtude, um sentimento que não se tem.”

Para todo bom entendedor, meia palavra basta. O poeta dicionário versificava a tão conhecida hipocrisia. Que posso falar eu a respeito de medonha atitude? O curioso livreto definiu tão precisamente a vil palavra que nada posso dizer, a não ser o quanto venho me espantando ante as dissimuladas atitudes dos que cruzam meu caminho.
Estou longe de ser santo, eu sei. Talvez a minha maior surpresa seja descobrir que faço parte do poema chamado: Hipocrisia. Creio eu que estas linhas medíocres não passam de conceitos repletos de farsas e deslealdades…
Esta crônica é um forte desejo de que os dissimulados e hipócritas todos trilhem o caminho no rumo da mais remota puta que os pariu. (Caso algum dia eu também tenha sido desleal e hipócrita, rumarei, com muito bom grado, na direção de pitoresco lugar.).
Este texto é uma homenagem a todos aqueles que abraçam sem vontade de abraçar. Um brinde àqueles que beijam com vontade de cuspir, e sorriem com vontade de enforcar. Vida longa aos falsos felizes. Vida eterna aos deploráveis sedentos de poder. Aos que futricam, prejudicam, maldizem e falseiam bons sentimentos, desejo toda a sorte de insatisfação.

Depois de despejadas estas chatas palavras, despeço-me com uma certeza hipócrita: “Amo todos vocês.”

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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