Revele-se para mim

Revele-se para mim: Ela era linda e não sabia

Eu não sei onde é que eu estava com a cabeça quando… Quer dizer eu sei sim, mas isso não é assunto para agora. Continuando:  Eu não sei onde é que eu estava com a cabeça quando resolvi me aventurar em histórias que não são minhas, mas o fato é que peguei gosto e não pretendo desistir. Quer saber?! Conhecendo um pouco dessas histórias, acabo descobrindo muitas coisas a meu respeito… Então se você quiser saber um pouco sobre mim, vai ter de prestar muita atenção nas histórias que vou compartilhar contigo. Talvez você encontre um pouco de você também em qualquer uma dessas linhas…

Bom, escolhi começar pela moça tímida que sentou-se diante de mim e hesitou muito pra começar a falar. Você não deve estar entendendo nada, não é?! Eu não sou psicólogo, terapeuta, psiquiatra nem nada dessas coisas… Entendo muito pouco dessa área. Sou só um carinha normal, de vinte e três anos, chamado Lucca, e resolvi ficar sentado num banquinho numa calçada qualquer, com uma plaquinha pendurada no pescoço, escrito o seguinte: “REVELE-SE PARA MIM.” E logo embaixo, numa letra menor, a frase: “Escuto histórias, belas, tristes… Ou simplesmente o que você quiser contar.”

Não interessa como, nem por que decidi fazer isso, mas o fiz.

Essa moça tímida não me revelou seu nome e nunca mais a vi. Não costumo criar vínculos com quem decide se revelar para mim… Aliás eu nem abro a boca, fico só olhando e anoto qualquer coisa que acho de interessante para refletir sobre. A menina tinha cara de uns dezoito anos e tinha também uma dificuldade enorme de olhar nos olhos. Disse-me ela, depois de muito esforço para começar, que tinha enormes dificuldades em demonstrar sentimentos… Até então isso nunca tinha a incomodado tanto, só que agora estava apaixonada, muitissimo apaixonada, loucamente apaixonada. É, loucamente! Foi essa a palavra que ela usou.

-Loucamente! Estou loucamente apaixonada! É um sentimento forte que explode aqui dentro de mim. Dói como uma saudade que jamais será satisfeita. É tipo sede de ressaca. Você bebe toda a água do mundo e a sede não passa. É tipo isso. -disse-me ela aos solavancos, como se finalmente libertasse tudo o que estava preso nas profundezas de sua alma.

E, olha, eu sei muito bem o que é estar loucamente apaixonado… Sou um romântico incorrigível. Mas nunca fui de reprimir sentimentos não. Não sei como é essa coisa de ser apaixonado por alguém e não conseguir demonstrar… Enfim, a menina estava quase que sufocada por ela mesma… Disse-me que apesar de toda essa intensidade visceral de seu amor, não conseguia ter coragem de se declarar, afinal de contas o cara era lindo, perfeito, demais, o fodão… E ela?

-Coitada de mim. Sou praticamente nada perto dele. O amor não é coisa pra mim… sempre tive muito azar nessa área, só quebrei a cara. Fora que me disseram que ele está saindo com uma colega minha da faculdade… -finalizou ela, saindo logo em seguida de cabeça baixa.

Fiquei observando seus passos lentos e cheios de pesar. Andava feito uma condenada ao cárcere eterno da rejeição e dos amores platônicos. Aquilo mexeu comigo, pois é claro que já idealizei pessoas e amores que estavam longe de ser verdadeiros. Mas sabe o que mais me marcou naquela simples e rápida história??! Foi o modo como ela se colocava pra baixo… Meu, que viagem!!!! A menina era linda… E tinha também um jeito muito sincero de amar. Sorte do cara que se apaixonasse por ela. E aí eu fiquei pensando: Que diabo de mania é essa que a gente tem de achar que a gente não tem valor, que a gente é coisa pouca… Mania besta de rastejar e mendigar por atenção. Não posso falar por ela, mas tenho quase certeza de que, na verdade, ela nem era apaixonada de verdade por esse tal cara fodão. Era mais uma questão de se encantar por algo que ela mesma julgava impossível. Não sei se estou conseguindo me fazer entender, sou meio atrapalhado, mas todo mundo já deve ter passado por isso alguma vez na vida… Às vezes nós estamos com a auto-estima tão lá embaixo que começamos a nos encantar por tudo aquilo que parece ser impossível de se alcançar, como forma de provar pra nós mesmos que temos toda razão em achar que somos incapazes. É como se a gente usasse essa suposta impotência pra dizer mais ou menos o seguinte:

-Está vendo?! Eu estava certo, sou uma bostinha de pessoa!

Minha amiga Lia que tem mania de ficar dizendo que está certa…

Enfim, pra você que está lendo tudo isso agora, seja lá qual for o momento que esteja vivendo na sua vida, faça-me o favor de não se colocar pra baixo dessa maneira tão sórdida. Ergue essa cabeça e não se contente com pouco. Todo mundo merece ser feliz. Não coloque pessoas em pedestais… Todos somos iguais. Ame-se. Por favor, ame-se. E se por um acaso alguém não te quiser ou te desprezar, faça como aquela música lá, beijinho no ombro, e vá em busca de tudo o que te faz bem. Você tem que se tratar muito bem. Você tem que cuidar de você. Eu te garanto que essa é a melhor solução.

Agora preciso ir… Prometo que na próxima vez conto os relatos com um pouco mais de detalhes. É que dessa vez eu tive que me apresentar também… E escrevi tudo com um pouco de pressa. Meu pai está preparando pizza, ele adora fazer pizza, e eu preciso ajudá-lo! Fui!

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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