Revele-se para mim

Revele-se para mim: Um certo Dia dos Namorados…

“Revele-se para mim” são textos escritos por Lucca, um personagem/narrador que escreve e reflete sobre histórias e pensamentos que ouviu de pessoas que ele nem conhece… 

Não, aquele não era um dia bom para mim e vocês já até sabem o porquê! Era o bendito Dia dos Namorados e por mais um ano consecutivo eu sofria com as dores de um pé na bunda… E daquela vez o pé tinha acertado em cheio, pois doía demais. Era impossível não lembrar de Amanda naquela ocasião, afinal de contas fazia pouco tempo que tínhamos terminado, e eu ainda não tinha me conformado inteiramente com o chute que ela me dera sem a mínima compaixão… Essa era a minha sina, levar pés na bunda pouco tempo antes do Dia dos Namorados, só para ficar assistindo à alegria dos outros casais, feito um mero e insignificante espectador, como se a vida insistisse em me dizer: “Olhe só seu idiota, este dia não é para você. Conforme-se com sua solteirice eterna.” Não, não vou gastar mais linhas falando dos inúmeros foras que já levei pela vida… O objetivo aqui é outro, então vamos a ele.

Estava eu lá em meu banquinho, em plena avenida Paulista, aguardando a chegada de qualquer pessoa que pretendesse fazer alguma revelação para mim. Confesso que naquela data eu realmente não estava afim de ficar ali ouvindo histórias que nem me diziam respeito, mas algo me fazia permanecer, algo me tirou da cama e disse: “Vai!” Ok, eu fui. Peço perdão se até agora eu pareci um tanto mal humorado, garanto que esse tipo de comportamento não é do meu feitio, mas essa data não me deixa outra escolha… Hahahaha… Além do mais, Lia e eu brigamos feio… Lia é uma amiga/irmã. Qualquer dia desses eu falo sobre ela. Continuando: Eu estava lá sentado, o movimento era grande, mas ninguém se propunha a conversar comigo… Concluí que deveriam estar muito ocupados com os presentes e programas que fariam com seus companheiros logo mais à noite, afinal de contas eu era o único solteiro do mundo em ocasiões como aquela.

Marta sentou-se diante de mim numa atitude de urgência, um sorriso de orelha a orelha, respiração ofegante, brilho nos olhos… Estava nitidamente feliz. Gostei daquilo, pois tem dia que tudo o que a gente mais quer é ter boas notícias, nada de desabafos deprês e histórias desanimadoras.

-Meu nome é Marta, tenho cinquenta e quatro anos. -identificou-se, sem perceber que eu não me importava com esse tipo de apresentação… Mas notei também que ela fazia questão de dizer quem era. Proclamou sua idade com orgulho. -Vivi sozinha por muitos anos. Não tenho filhos, netos nem parentes próximos… Nunca tive marido.

“Merda!”, pensei. Já vai começar a choradeira.

-E se quer saber de uma coisa, nunca planejei esse tipo de coisa. Nunca me vi casada, nunca me vi construindo uma família. Nunca tive o sonho de viver amores, não sou romântica e nem tenho paciência para essas coisas… Dediquei-me a construir os meus sonhos e posso te dizer que consegui.

Aí já comecei a gostar mais, parecia-me mais decidida, sem exageros de lamentações.

-Mas tenho que te dizer que a vida nos surpreende, sempre. -disse-me ela, como se de repente desvendasse os meus segredos, assustei-me. -A gente tem mania de achar que tudo é definitivo, que as dores jamais passarão, que a saudade nunca vai diminuir, que seremos sempre as mesmas pessoas, eternamente… Isso é ilusão, meu jovem rapaz. Quando olho para trás, eu percebo o quanto mudei e o quanto estou prestes a mudar. Antes eu renegava essa realidade, achava que tinha controle sobre tudo, mas hoje… Hoje eu já não sei de mais nada, e isso me faz bem, isso me liberta… Hoje eu posso afirmar com toda a certeza que conheci o amor. É, aos cinquenta e quatro anos eu me sinto apaixonada de verdade pela primeira vez. Isso não estava nos meus planos, eu já achava que a chance estava perdida, que isso não era pra mim… E de repente, olhe, pareço uma adolescente. Estou apaixonada. E já que o amor bateu à minha porta, não vou lhe negar guarida. Vou deixar que ele entre e faça parte de mim. Jamais pensei que eu diria uma coisa dessas: Mas eu quero provar o sabor desse tal de amor e sei que vou gostar. Não tenho medo.

Abri um sorriso meio amarelo, sabe… Pensei coisas pessimistas a respeito, mas optei por não mencioná-las porque de certa forma a alegria dela também me contagiava. Marta finalizou.

-Só quero te dizer que tantas coisas ainda podem acontecer. Não temos a minima ideia do que o destino está reservando pra gente… Hoje você está aqui ouvindo minhas histórias, talvez amanhã você esteja em outro canto, com outras pessoas, contando a sua história… Ou melhor: Vivendo a sua história. Nada é tão definitivo. Tudo pode mudar. Lembre-se disso.

Levantou-se e saiu.

Fiquei ali refletindo sobre as coisas que Marta me disse… Tantas coisas ainda podem acontecer…

Se você quiser que a sua história seja contada por Lucca, clique aqui.

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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