Revele-se para mim

Revele-se para mim: Amores inacabados

Sugestão de música: Le Vent Nous Portera / Sophie Hunger

“Revele-se para mim” são textos escritos por Lucca, um personagem/narrador que escreve e reflete sobre histórias, pensamentos e desabafos que ouviu pelas ruas…  Se você quiser que a sua história seja contada por Lucca, clique aqui.

Costumo dizer que não sei lidar com rompimentos, nem separações. Saudade pra mim é um sentimento dolorido e perverso, difícil de suportar… Sinto saudades de quem amo, saudades dos lugares que visitei e saudades dos amores que vivi, principalmente dos amores que não se encerraram completamente. Sabe aquelas relações que deixam um rastro de vírgulas e reticências, mas nunca um ponto final definitivo?! Possibilidades, desejo de voltar atrás… Qualquer coisa por fazer, algo a se viver. Sou fraco, assumo. Não fui feito para carregar nos ombros o peso infernal dessas lembranças mal resolvidas.

Meu pai sempre me ensinou a não gastar tempo demais olhando para trás, pois o passado guarda consigo a sombra de nossos próprios erros, principalmente aqueles erros irreparáveis, os erros mais doloridos e os atos mais impensados. O arrependimento é perturbador, segundo ele. É capaz de enlouquecer… É capaz de destruir um futuro promissor… É capaz de desmoronar todas as chances de recomeçar.

-Olhe pra frente, filho. -dizia ele. -O daqui por diante é a sua única chance de fazer diferente.

Sempre tentei seguir esses conselhos, mas tenho tendências fortes ao saudosismo. E tenho uma mania imbecil de ficar remoendo as merdas que fiz… Talvez para aprender a não fazê-las novamente. O pior é que sempre acabo cometendo os mesmos erros. Dia desses ouvi uma história de dor, mas que me levou a refletir sobre esses assuntos. Quem não guarda no peito a lembrança triste de pelo menos um amor inacabado? A moça que me contou essa história tinha nos olhos o brilho de quem não se arrepende de nada, mas tinha também a melancolia de quem perdeu alguém que coloria seus dias.

-A minha vida está cheia de amores que não tiveram um ponto final no meu coração. Meu último relacionamento durou três anos… Ele era o melhor namorado que eu poderia ter, eu ainda o amo. Fiz dele a minha morada, meu abrigo, depositei todas as minhas forças nessa relação. A família dele era incrível! Nossa trilha sonora era embalada pelos Engenheiros do Hawaii, e naquelas músicas encontrávamos as palavras certas para nos declararmos um ao outro. Ele tocava violão para mim e formávamos o dueto mais lindo que já ouvi. Seu abraço era meu lugar mais seguro no mundo… Seu sorriso e suas palavras tinham lugar certo dentro do meu coração. Dói escrever a respeito dele utilizando o passado. Terminamos em meio a choros e decepções. Parece que nessas horas a gente esquece dos momentos felizes e só lembra das atitudes ruins, das lágrimas e dos erros. Faz quase um ano que terminamos e eu ainda sinto o cheiro dele… Faz quase um ano que as suas canções não acalmam mais o meu coração e que minha playlist anda tão pra baixo. É pedir demais ser a “Perfeita Simetria” de alguém? Nosso fim foi algo que eu não pude evitar. Agora ele tem a chance de encontrar um novo amor e eu também, mas eu me recuso a buscar. Remoer o passado é horrível, mas eu vivo as melhores lembranças de nós dois. Sem ele, eu “Ando só”. Com ele, nenhuma “Terra de Gigantes” me causava medo. Sem ele, o “Refrão do Bolero” é tão triste. Com ele, eu iria “Até o fim”.

Eu gostaria de ser um super-herói, um milagreiro, um mago, um gênio da lâmpada, sei lá… Alguém com poderes mágicos… Queria poder devolver esse cara a essa moça… Sério. Mas sou pequeno. Talvez seja hora de recomendar os sábios conselhos de meu pai. Olhe para a frente e faça do agora a sua grande chance de mudar tudo. O passado era bom, claro… Mas o futuro pode ser melhor ainda. Por que não tentar?!

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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