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A arte de ser só




Ninguém é tão multidão que nunca tenha se sentido solitário e nem tão só que nunca tenha sentido saudade. Humano nenhum é feito só de um ser.

Alegres ou totalmente nublados, os dias também são cheios de dúvidas, cobertos de certezas. As sextas-feiras não são feitas só de coragem, e os começos nem sempre são mergulhados em medos.

Só, é quem não recomeça, quem não erra, quem não guarda nada. Nem dinheiro nem histórias. Só é um entulho de cicatrizes, de aglomerados que já não servem mais. Só, é quem não cria, nem expectativas, nem esperanças, nem bichos de estimação.

Os fins não são feitos só de beijos, e não só de embarques é que se fazem partidas. As despedidas podem ser de sol e um abraço pode não ter calor. Nada é cheio de tudo, nada é inteiro de si.

A paixão não é só chamas, assim como o amor não é um labirinto tranquilo. As tempestades não são construídas apenas pelos dias quentes e de verão, podem acontecer dentro de um peito vazio e cheio de memórias.

Os amores não são só doces ou amargos, assim como algumas saudades não curam com o tempo. Outras sabem sorrir. O tempo não é mestre de tudo, assim como a morte nem sempre é o começo do fim. Os suspiros não são só feitos de claras de ovos e açúcar. Amizades podem suspirar, enamorados podem suspirar, quem é só também pode suspirar.

Só é aquilo que se basta, que não segue, que não pula de fase. É aquele risco que não queremos correr, é aquela desculpa que teimamos em dar, é aquele silêncio que busca racionalidade ao existir. Só, é quem esquece a mágica, a alegria, as boas histórias. Só é quem não se desprende, quem não planeja, quem não vira a mesa e chuta o balde.

Só é aquilo que só tem um jeito, um caminho, um destino. É aquela carta que ficou guardada na gaveta, é aquele livro que você passou batido na livraria, é aquela música que você deixou de ouvir. Só é tudo o que até hoje não fez sentido mesmo você imaginando todos eles. Só é o lado da moeda que você nunca quis tirar.

Estamos rodeados de pessoas sós. Só por uma coisa ou só por outra. Só porque querem ser mais, outros porque querem ter mais. Outros são só porque buscam alguém, outros porque não encontram ninguém, outros porque não desejam se encontrar.

A arte de ser só esta cada vez mais rotulando pessoas e sentimentos. Ou você é tudo o que o outro quer ou não é nada. E se não existissem as chuvas nas tardes quentes de janeiro, o que seriam das cores que aparecem no céu em forma de arco-iris?

Tudo tem seu lado, lado certo, lado esquerdo. Ninguém é só um poema que chega ao fim, é a prosa que brilha por entre os aplausos. Viver só sendo só, é ser só isso e só!


Gisele Ribeiro, Gaúcha – Gremista – Escorpiana. Jornalista e Relações Públicas, mora em Caxias do Sul, RS. Apaixonada por livros, música, poesia, chimarrão e cachorro. As coisas simples a encantam e as palavras a transbordam.


 

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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