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De que se escrevem os tempos?




Os tempos se resumem ao que fica, ao que sobra, ao que não conseguiu passar, findar. É aquele abraço que não conseguimos alcançar, é aquele beijo que não conseguimos roubar, é o adeus que não fomos capazes de pronunciar. Os tempos são feitos de dores, de saudades, de coisas que a gente não conseguiu carregar, dos erros que a gente não conseguiu aparar, do sussurro que a gente não pôde dizer, do fim que a gente não foi capaz de evitar. Os tempos se calam nas lembranças que levamos, nos amores que amamos, nas batalhas que perdemos. Os tempos se perdem em meio aos dias, se confundem em meio à memória, se acabam como numa tarde fria.

Os tempos se dissolvem por entre as frestas e os vazios que se acomodam por entre os sonos e se despertam por entre os medos. Os tempos assombram por entre as verdades, se enchem de ilusão e se perdem. Os tempos são os pertences nunca pronunciados, os labirintos escondidos, os caminhos não trilhados. Os tempos são os passos lentos que caminhamos, o que sucumbimos, o que encontramos. Os tempos traem, secam, vertem. Os tempos aumentam, transbordam… os tempos silenciam.

Os tempos são as pessoas que amamos e não queremos de volta, são as que queremos pra sempre, são as que nos paralisam. Os tempos são os sonhos que não dormimos, os carinhos que não doamos, o perdão que não consentimos. Os tempos são o que deixamos pra lá, o que deixamos pra cá, os que nos deixaram. São os começos sem finais, e os finais sem respostas. São respostas sem espaço, são silêncios sem palavras.

Os tempos são os que nos tiram a coragem, nos enchem de lembranças, nos causam tremor. São as coisas que não podemos levar, os espaços que não podemos buscar, os lamentos que não podemos chorar. Os tempos são os sentimentos que não nos são permitidos sentir, são os tropeços que não podemos parar, são as feridas que não podemos sessar. Os tempos são as presenças marcadas, os encontros negados, o carinho apagado. Os tempos são os sorrisos despidos, os abraços traídos, os trejeitos guardados. Os tempos são o que fica depois que a luz se apaga, que a solidão se achega, que só eu não basta.

Os tempos são os relógios parados, nos momentos tocados, no amor tentado, no coração fechado. Os tempos são os males sem cura, as mágoas sem retorno, o que a gente deixou de ser e o que nos tornamos. Os tempos são os laços que criamos, os apertos que calamos, os momentos que deixamos.

Os tempos são as sobras do que não sobrou, do dia que findou, do ano que começou, da saudade que ficou. Os tempos são tudo que temos do que não podemos mais ter, são todos os nomes que não podemos mais soletrar e os momentos que não podemos voltar.


Gisele Ribeiro, Gaúcha – Gremista – Escorpiana. Jornalista e Relações Públicas, mora em Caxias do Sul, RS. Apaixonada por livros, música, poesia, chimarrão e cachorro. As coisas simples a encantam e as palavras a transbordam.


 

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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