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Apesar de tudo, estou bem

Apesar de tudo, estou bem. Foram dias e dias na tristeza da vida, afogada num mar de solidão e desespero. Meu Deus, pensei que aquela sensação de buraco no peito jamais iria passar. E quanto mais me dedicava a esquecer o que havia passado, mais me afogava nas águas das minhas próprias lágrimas.

Foi difícil! Caramba, não sabia que era capaz de sofrer tanto assim. Pitty uma vez cantou “tantas decepções eu já vivi; aquela foi de longe a mais cruel”. A primeira vez em que ouvi essa música pensei ser um tipo de desabafo vindo do íntimo de uma pessoa extremamente desiludida com tudo e todos, mas hoje, ah, hoje eu sei que não, ela simplesmente estava expondo sua indignação com a sequência de coisas difíceis que estava enfrentando ao longo dos anos.

E sim, eu ouvia e repetia as canções que falavam sobre como o amor, apesar de lindo, também pode ser mortal. Ficava horas e horas pensando que minha vida jamais seria a mesma, afinal eu havia perdido o sentido de estar ali. Quem me fazia feliz, me abraçava, me cuidava, decidiu soltar minha mão e me deixou para trás.

Foram meses até eu estar totalmente bem. E não, não permitia que ninguém tocasse no assunto, pois involuntariamente um nó se formava em minha garganta, fazendo meus olhos ficarem vermelhos, minha voz trêmula e meus pensamentos, confusos. Não queria mais falar sobre nada que remetesse a relacionamentos; acreditava que eles eram um tipo de desastre que vem sobre a vida da gente para causar dor.

Então, um dia, passei ao lado de uma moça linda. Nossa como ela era bonita! Aquele cabelo sendo arrastado pelo vento e encontrando a boca aberta num enorme sorriso. Os olhos brilhantes contra o sol e a expressão de leveza de quem traz consigo apenas o necessário. Fiquei encantada com a beleza daquela moça. Curiosa, aproveitei que estávamos próximas e perguntei: “o que você faz para ser tão bonita?”. Ela me olhou, sorriu, e respondeu da maneira mais simples que pôde: “eu sou feliz comigo mesma”. Depois ela levantou, disse tchau e foi ao encontro de um grupo de meninas vestidas de social.

“Eu sou feliz comigo mesma”… Aquela frase ecoou na minha cabeça por uns dois dias, até que meu coração compreendesse que na verdade, quem precisava dessas palavras era ele, e não meu cérebro. Quando acordei de manhã, acordei disposta a ser feliz comigo mesma, ainda que sem saber ao certo como faria isso.

Me levantei, tomei um banho, penteei os cabelos, pus um vestido, e passei batom. Meu Deus, há séculos eu não usava batom. Desde… Desde a última vez que nos vimos. Quando saí de casa, cumprimentei meus vizinhos, e parei o carro na faixa para que pedestres passassem. Uma senhora que atravessava a rua acenou e sorriu em agradecimento. Aquele sorriso me fez sorrir também.




No trabalho, tirei de minha mesa a foto que tiramos juntos na minha formatura. Percebi que o passado deveria ficar para trás, e para isso, era preciso limpar tudo, inclusive minha vida. No almoço, sentei sozinha em um banco da praça, e enquanto tomava sorvete me permiti apreciar a beleza das flores plantadas no canteiro. Comprei um colar, liguei para minha mãe, e disse que estava feliz. Ela respondeu que se eu estava bem, tudo estava bem também.

Quando voltei para minha casa, me sentia leve como há muito tempo não sentia mais. Peguei meu celular, atualizei a agenda; alguns números já não deviam mais estar ali. Abri meu armário, vi que só havia bobeiras para comer. Fui ao mercado, comprei comida de verdade e fiz um belo strogonoff para mim mesma. Antes de dormir fiz uma oração; agradeci pelo dia diferente, e pela força em tentar. Pedi aos céus que me ajudassem a continuar o que havia começado.

E assim, todos os dias fui me permitindo sorrir novamente. Demorou, deu trabalho, mas quando dei por mim, não havia mais nada relacionado aos últimos quatro anos. Estava cantando de novo, estava dançando, estava me divertindo e conhecendo pessoas novas. Estava comprando perfumes, trocando de emprego, e me habituei a ir à academia fazer pilates.

Estava bonita para mim. Estava bem com o que me cercava. Estava certa de que o que aconteceu me levou a algo melhor. Estava feliz comigo mesma.

Então hoje, eu só vim te contar, que estou muito bem, obrigada, e afinal, você teve a ver com isso. Foi vendo você deixar para trás quem eu era que pude contemplar a grandeza de mulher que posso ser.

 


Raquel Gonçalves, Ela é a menina que grita em silêncio, e desenha em palavras o uni-verso. A Deus tudo atribui e, dele, tudo recebe. Sempre flutuando em outros mundos, mas com os pés fixos neste aqui. Como canta Ana Carolina: “é que eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa se não me doar”.


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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog, ele adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Colunista também do blog Que Me Transborde. Nasceu em Jundiaí – SP e mudou-se para São Paulo – SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt. Foi premiado em 5º lugar no XV Concurso Literário JI / AEPTI, na categoria Contos e Crônicas.

Entre em contato: ribashugo@hotmail.com


“Lembrar de você não dói mais. Pensar em você é como lembrar de uma piada tola… A gente dá uma risadinha e logo esquece.” – Hugo Ribas

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Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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