hugo ribas ao amigo
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Ao amigo que conheço, mas já não reconheço

Ao amigo que conheço, mas já não reconheço.

Olá, tudo bem? Quanto tempo faz que não nos falamos? Acho que desde aquele dia em que… Isso! Desde aquele dia em que alguma coisa mudou, e bem, até hoje não sei o que foi.

Estive prestando atenção no fundo dos seus olhos… Eles já não falam mais de amor. O amarelo misturado ao marrom que me faziam lembrar o amanhecer do dia, agora é apenas marrom. E aquele brilho que só você tinha de ambição pela vida, agora é mero olhar de quem tem fome por sucesso.

Mas então, como vão as coisas? Fiquei sabendo que você mudou de casa, de carro, de amor e de caráter também. Me disseram que agora sua vida é correria, um sobe-desce desgramado, passaporte sempre cheio e a mala lotada de roupas e ideias. Procurei por sua casa, mas os vizinhos disseram que você se foi, e levou junto o cachorro, o jardim e a falta de bom dia pra quem passava por sua calçada. Levei um susto quando soube que você havia entrado para a Component Systems. Logo você que desencorajou nossos amigos a tentar a vaga… Hoje eu entendo o que você quis dizer com “aquela vaga é pra gente grande. Peixe pequeno morre na margem”.

E o que houve com aquela eterna juventude? Com o jeans desbotado que sentado na calçada cantava que “Temos todo o tempo do mundo”? Onde foi parar o salame com limão regado com chuva inesperada? As risadas, as tolices, as piadas e apelidos que apenas nós entendíamos… Onde foram parar?

Outro dia te chamei pela milésima vez no chat, e você só respondeu para informar que seu nome é “Renato” e não “Tonho”. Depois, como se por culpa ou talvez vergonha, quem sabe até por uma mínima consideração, você perguntou: “e aí, blz?”. E até hoje eu espero que a conversa continue.




Na última vez que nos vimos não pude deixar de perceber sua pressa em ir embora dali. Insistentemente naquele seu celular as horas corriam, e ao que percebi, meus 15 minutos foram em seu tempo 2 anos luz de distância. Vi também que suas perguntas mudaram. Quem antes sabia sobre minha família, estudos e amores, agora limita-se apenas a dizer: “trabalhando muito?”.

Você foi um grande amigo, um bom irmão, um guarda-chuva pra constante garoa que cai dentro de mim. Mas agora é um desconhecido guardado no corpo de quem um dia já foi sol. Lembro um dia que, juntos, cantamos:

“Na paz, na moral, na humilde,

Busco só sabedoria

Aprendendo todo dia.

Me espelho em você, corro junto com você, vivo junto com você

Faço tudo por você”.

Acho que na verdade nós não fizemos tudo um pelo outro. Em alguma curva na estrada perdemos o controle e nos permitimos bater contra nossas emoções.

É difícil explicar ao certo quando, onde, porquê… Além de difícil, considero desnecessário, afinal, o que isso muda entre tanta coisa fora do lugar?

Mas eu ainda te conheço. Ainda sei teu nome, sobrenome, idade, sei que gosta de sorvete de baunilha e que prefere BK ao invés de MC. Eu ainda sei qual é seu rosto, conheço sua voz e sei dizer se é dia ou noite dentro de você. Eu ainda te conheço como a palma da minha mão. Eu ainda sei ler seus olhos, e pela voz trêmula sei que apesar do sucesso, está com medo do mundo. Eu ainda sei que esse mar de emoções vez ou outra te mareja os olhos, e sei também que você ainda ouve aquela música que te enviei.

Eu ainda te conheço, eu só não te reconheço. Eu não encontro mais em você aquela pessoa brilhante e gentil, capaz de mudar o mundo apenas com uma frase. Eu já não reconheço mais essas palavras novas; se antes você acariciava com versos, hoje espanca com ordens. Eu não reconheço essa personalidade fechada, esse riso sarcástico, essa mania de pensar estar sempre num teatro, e por isso, viver atuando. Eu não reconheço essa nova mania de tornar em degrau quem te mostrou onde fica a escada; eu não reconheço essa ideia insana de pagar amor com desinteresse; eu não reconheço esse olhar distante como se eu não estivesse ali.

Então, tomara que você mesmo ainda se reconheça, se encontre e pertença. Tomara que essa nova identidade seja sua e não uma criação do sistema (vulgo humanidade). Tomara que todo esse excesso de confiança não esconda nenhuma falta de compreensão. E quando quiser voltar ao estágio zero, só posso dizer: “amigo, estou aqui”.


Se você gostou desse texto da Raquel Gonçalves, deixe seu comentário <3 E olha, tenho certeza que você vai AMAR esse texto também: Ter uma irmã que seja a sua melhor amiga

Eu também sou colunista de outros blogs, dá um pulinho lá para conferir: Que Me Transborde / Superela /  Recalculando a Rota.

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Raquel Gonçalves

Raquel Gonçalves, Ela é a menina que grita em silêncio, e desenha em palavras o uni-verso. A Deus tudo atribui e, dele, tudo recebe. Sempre flutuando em outros mundos, mas com os pés fixos neste aqui. Como canta Ana Carolina: “é que eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa se não me doar”.

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