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Quando o amor pede um ponto final

Quando o amor pede um ponto final

Eu te amo. Acho importante iniciar esse texto com uma frase forte dessas. Sabe, as pessoas costumam dizer que odiar alguém é muito forte, mas sem sombra de dúvida amar é bem mais. Por que o ódio, bem, o ódio um dia foi algum tipo de amor. Você não nasce odiando, aprende a odiar.

O ódio sempre vem como a consequência mais pura de uma série de desilusões. Uma queda na linha tênue dos sentimentos. Sabe, o ódio só é ódio porque um dia ele foi a intensidade do querer. Mas um dia ele se tornou em outra coisa, e de repente ele era uma mistura de não suportar com não ser obrigada.

Mas o amor, não, o amor nunca foi ódio. Ele sempre foi isso, amor. E ele vai muito mais além de qualquer outra coisa. Ele rompe com as barreiras do inimaginável, porque bem, ele sempre faz com que aquilo que não foi imaginado aconteça. Ele arde como fogo e só há duas opções quando o incêndio começa: ser consumido, ou apreciar a beleza do fogo. Ele chega com fome, com ânsia, por um espaço que lhe é seu por direito, mas que ninguém sabe ao certo o porquê de lhe pertencer. Ah! O amor e suas trepidações…

Quem nunca sentiu as pernas tremerem ao ter o corpo percorrido pelas mãos de alguém? Que erga a mão aquele que nunca estremeceu só de ouvir o som da voz de determinada pessoa se aproximando, e num ímpeto quis levantar – mas meu Deus – levantar para quê?

E que bendito seja o cidadão que nunca teve vontade de deitar ali mesmo, na guia da calçada por onde corria água da chuva e chorar pela discussão que mais uma vez começou sem porquê e terminou sem pra quê. Invejo eu quem num momento de coragem se perdeu no calor do instante e tacou tudo para o alto, como se a cena resolvesse o problema. Não, não resolve, todos sabemos disso, mas que deve ser um baita de um alívio, ah, sem sombra de dúvida.

Eu te amo. Quero deixar claro nestas linhas que você me faz oscilar entre a delícia de pedir por mais um beijo na esperança de que você me beije a alma também, e o inferno de mais cinco minutos respirando fundo para que meu coração volte a bater no ritmo em que batia antes de ouvir mais uma enxurrada de palavras trancadas a tanto tempo em sua goela. Quando balanço nossa inconstante relação percebo que sim, eu amo você, e não, os anos não foram capazes de mudar isso.

Eu amo você. O sentimento é o mesmo, o rosto é o mesmo, o beijo é o mesmo, mas o amor não. E pode parecer confuso, ou talvez até desconexo, mas não, não é. Porque sentimento e relação são coisas bem diferentes, e foi vivendo ao seu lado que eu descobri isso.




Nosso amor mudou, porque nós dois mudamos. Eu já não sou aquela garotinha pequena de olhos brilhantes que você abraçou e prometeu nunca mais largar. Não, eu realmente não sou. De pequena só me sobrou à história, porque a bagagem, de pequena não traz nada. Eu cresci, eu mudei, eu me transformei (e vou continuar transformando).

Eu vi a vida como ela é, e bem, isso me fez perceber que princesas nascem com castelos construídos por seus pais, mas rainhas têm de construir seus próprios reinados, castelos e também seu próprio povo. Eu não sou mais indefesa, nem medrosa, e muito menos calada. Hoje eu falo, e por vezes falo até demais, mas é que eu vi que não se baixa a cabeça, e eu ainda estou aprendendo a lidar com isso.

Mas você também mudou. Ah, meu querido anjo do sorriso mais bonito, a quem eu sempre vou guardar num lugar especial dentro de mim. Você mudou (e como mudou). Você, aquele mesmo menino que me fazia perguntas sobre absorvente hoje é um homem lutando pela própria paz. O menino da mochila lotada de livros hoje traz nas mãos apenas o peso de ser quem é. Você, antes quieto, hoje é calado (e isso me assombra). Você que um dia jurou não me soltar, soltou. Mas a culpa não foi sua; quando você soltou, eu não tentei prender, soltei também.

O nosso amor mudou. As conversas antes tão grandes e alinhadas, como se seguissem um roteiro pré-determinado, aos poucos foram se tornando em falas rotineiras, perguntas comuns e respostas diárias. O seu perfume antes tão bom, se tornou apenas um cheiro conhecido que me faz sorrir com a identificação no ar. O meu sorriso, sempre tão elogiado por você, agora é só um sorriso.

Eu amo você, mas eu não amo o que estamos tendo. E demorou muito até eu ter certeza e coragem suficientes para assumir isso para mim mesma. Eu amo estar nos seus braços, ouvir sobre sua vida e dar risada das falas iguais que saem sem que a gente espere. Mas eu não amo a indiferença diante da nossa falta de sincronia nas escolhas; eu não amo ter você ao meu lado, mas não te ter comigo.

Por isso, hoje eu vim te dizer que sim, eu vou dar um ponto final à nossa história. Um desses que a gente dá para encerrar a frase, sabe? Mostrar que sim, ali, naquele ponto, a história foi interrompida.

Mas um ponto final é isso: um ponto. Ele sinaliza o fim de um parágrafo e o início de outro. E sim, eu vou iniciar um novo parágrafo, e quero que você também inicie o seu. Vamos escrevendo nossas histórias até o dia em que os capítulos decidirem se encontrar novamente. Quem sabe numa curva em Bangladesh, no bar da esquina, ou no farol em Ubatuba. Talvez no casamento de nossos amigos, ou naquele restaurante em que ambos gostamos de pedir sorvete de morango. Um dia, talvez, tenhamos de adicionar outro ponto final ao capítulo para voltarmos a escrever juntos.

Mas agora, bem, agora eu vou escrever minha história sozinha. Vai ser difícil, há um bom tempo eu não tenho de fazer esse tipo de coisa, mas eu vou viver (e sobreviver). Obrigada por estar aqui desde o início da história e por ser parte da última letra também. Mas o ponto… O ponto final, esse mesmo; o ponto eu ponho sozinha, que é pra ir acostumando com minha nova condição.


Se você gostou desse texto da Raquel Gonçalves, deixe seu comentário <3 E olha, tenho certeza que você vai AMAR esse texto também: O palco agora é meu

Eu também sou colunista de outros blogs, dá um pulinho lá para conferir: Que Me Transborde / Superela /  Recalculando a Rota.


“Lembrar de você não dói mais. Pensar em você é como lembrar de uma piada tola… A gente dá uma risadinha e logo esquece.” – Hugo Ribas

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Raquel Gonçalves

Raquel Gonçalves, Ela é a menina que grita em silêncio, e desenha em palavras o uni-verso. A Deus tudo atribui e, dele, tudo recebe. Sempre flutuando em outros mundos, mas com os pés fixos neste aqui. Como canta Ana Carolina: “é que eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa se não me doar”.

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