estupro e crime sim hugo ribas
Variedades

Estupro é crime sim!

Estupro é crime sim. Deu para entender ou prefere entender já na cadeia?

Se você mora nesse país chamado Brasil e teve acesso às redes sociais nos últimos 3 dias, certamente ficou sabendo da “música” Surubinha de leve (até escrever me dá asco, mas precisa ser feito). Porém, antes de continuar, quero que vocês leiam a seguinte estrofe:

Taca bebida,
Depois taca a p…
E abandona na rua.

Leram, né? Agora, acredito eu, que bem lá no fundo alguém tenha se perguntado ou até mesmo expressado: Ok, mas o que eu tenho a ver com isso? Tudo, caro amigxs. Tudo.

Não é só uma questão de música sofrível, letra absolutamente imoral e apologia a um crime hediondo. É a recepção desta em muitos locais. É a percepção de que o estupro pode ser algo ‘normal’. É a concepção de que pelo simples fato de sermos mulheres, somos alvos fáceis e talhadas a objetos sexuais, praticamente inanimados.

Agora, já que leram até aqui, imaginem o seguinte diálogo, a seguinte cena:

– Mãe, estou saindo.

– Tá bom, filha. Mas você tem certeza de que vai sair com essa saia? Está tão curta, o mundo é tão perigoso – fala a mãe zelosa.

– Qual o problema mãe?

– Só posso rezar por você, meu amor. Antes de sair, faz o favor de chamar seu irmão no quarto. Ele está lá trancado há horas ouvindo “aquelas músicas” dele.

Ao abrir o quarto para chamar o irmão, ele está ouvindo a música acima.

Temos aqui três comportamentos altamente presentes na nossa sociedade. Obviamente, guardadas as devidas proporções, quase todos nós conseguimos imaginar uma família onde essa cena pode ser altamente possível. E é exatamente contra isso que devemos lutar!

– Contra a ‘roupa certa’ para sair, pois podemos sair com a roupa que quisermos, não há roupa certa ou roupa errada. Contra cultura do assédio, do machismo e do estupro que precisa ser interiorizada por todos de que ela é errada, e não o comprimento da saia!

– Também devemos lutar para reeducar mães e pais que viveram toda a vida numa sociedade corrompida pelo machismo e que não consegue enxergar, garanto-lhes que na maioria das vezes por não saber lidar com a situação, que é preciso educar meninas e meninos da mesma forma, que é preciso mostrar à menina e ao menino o que é certo e o que é errado, mostrar ao garotinho que ele não deve fazer fiu-fiu pra moça na rua, nem que aos 3 anos ele tem que ter uma ‘namoradinha’ na escola ou até várias pro papai achar que ele vai ser o ‘comedor’. Tá aí outra expressão que me enoja.

– Devemos combater também a ideia mais do que absurda de que ‘segurem suas cabras que meu bode está solto’! Quer dizer que a menina tem que aumentar a saia, mas o menino tem que manter a fama de pegador?!?!??! NÃO NÃO NÃO!




Já que você teve a paciência de ler até aqui…

 

Vamos à mais uma situação hipotética:

Menina chega na delegacia pois acabou de sofrer um abuso. Bebeu, foi estuprada e largada numa viela qualquer, infelizmente a realidade de muitas.

Após responder às perguntas investigativas de praxe, ela certamente ainda precisará responder a imbecilidades, até mesmo ao prestar queixa, como: Mas com que roupa você estava? Você estava sozinha a essa hora? Saiu do local com o fulano porque quis? Você estava bêbada? Conheceu ele hoje e entrou no carro dele?

Tenho absoluta certeza de que muitas ouviram isso, pois existe sempre a visão de que a culpa é da mulher, da vítima… Sempre haverá aquela pergunta: ‘o que você fez pra acontecer isso?’. E, pelo amor de Deus, a partir do momento em que “músicas” como essa começam a ser ouvidas, há um retrocesso de dezenas de anos no que conquistamos na luta contra o machismo, na luta por igualdade, na luta contra a culpabilização.

As pessoas precisam entender que embebedar e estuprar uma mulher é crime! Não há desculpa! Não há paliativos! Não há nada! É crime, é injustificável. E pode acontecer comigo, com você, com sua irmã, sua prima, sua mãe, sua avó, sua melhor amiga, sua mulher ou com uma desconhecida de outra cidade, de outro país e VAI CONTINUAR SENDO CRIME. CADEIA. PRISÃO. VER O SOL NASCER QUADRADO.

Não enalteçam isso. Nunca. Por favor.


Se você gostou deste artigo da Erika dos Anjos, leia também essa publicação, você vai AMAR com certeza: Sobre o esporte para pessoas trans e as discussões LGBTI

Eu também sou colunista de outros blogs, dá um pulinho lá para conferir: Que Me Transborde / Superela /  Recalculando a Rota.

Érika dos Anjos é uma jornalista carioca, apaixonada por livros e adora dar pitaco nos acontecimentos do dia a dia. Ah, o mais importante, Aquário com ascendente em Leão e lua em Capricórnio.