O nosso tempo passou

O nosso tempo passou

-Diz o que você tem para dizer. Mas diz logo, seja rápido. Eu te peço. Se tiver que dar as costas e partir… Não se demore.

-A gente se prepara para dizer tantas coisas. Palavras que o coração não entende, mas sente e transborda, atravessa os limites do tempo e nunca alcança.

-Então diga. E não use mais o nosso tempo.

-Não sente o peito doer agora que estamos frente a frente?! Quero dizer… Não há mais nada aí dentro de você?! Quer mesmo que tudo acabe logo?

Eu só não quero doer mais. E você sabe que doeu, que feriu, machucou. Você já foi embora tantas vezes. Agora o que existe entre nós é essa muralha, essa impossibilidade, essa certeza de que o tempo não anda para trás. Eu desisti do nosso passado. Abri mão de doer. Risquei o nosso futuro.

-E a culpa foi minha. Reconheço.

-Não só sua. Foi minha também. Eu permiti que você fosse embora… Lembra?! Fui fraco.

-Não, você não foi fraco. Eu decidi partir. E era isso que eu queria te dizer. É isso que eu preciso dizer. Eu queria que você soubesse que, hoje, quem dói sou eu. Eu pulei do barco e te deixei lá… Só… Sem saber muito bem como remar, sem ter condições de chegar sozinho até às margens.

-Mesmo assim eu cheguei.

-Meu erro é fantasma. Pode ter certeza disso. Ele me assombra. Dói em mim.

-Também tenho meus fantasmas… Eu não fiz você ficar. Eu podia ter dito qualquer coisa que fizesse você desistir de desistir. Eu não fui capaz disso.

-Não estou aqui para resgatar o que não pode ser resgatado… Embora haja sempre uma esperança boba de que tudo pode, simplesmente, mudar. Às vezes eu me pego acreditando que “tantas coisas podem acontecer”. Ilusão. Estou aqui para curar um pouco dessa ferida que ficou meio aberta. Eu quero recomeçar, entende?! Preciso virar a página, assim como vejo que você virou.

-Nós nos abandonamos.

-Mas agora nos reencontramos…

-É tarde demais.

-Você acredita mesmo nisso?!

-Não é questão de acreditar, mas de precisar. Eu preciso entender que é tarde demais. Eu preciso me lembrar do quanto foi difícil manter-me vivo, inteiro… E forte sem você.



-Você acha que eu vou conseguir superar e seguir em frente?! Quero dizer… É tão difícil aceitar que um único erro tenha sido capaz de mudar tantas coisas. Meu erro mudou você. Roubei de você o brilho da vida. Minguei o seu riso. Você não era assim triste, amargo, vazio. Agora você tem um coração que nem se mostra. Olho para o passado… Tento enxergar o futuro além dessa neblina de dor e tudo o que vejo é arrependimento, remorso e pesar. Talvez eu não seja capaz de ter paz.

-Você não roubou nada de mim… Nada me foi tirado, nem arrancado. Ofereci por amor. Você não soube retribuir. Não te culpo. Não tenho raiva em mim. Esse meu rosto de hoje, assim triste, amargo e vazio não existe. É apenas consequência do seu olhar arrependido. Pode acreditar: Eu sou feliz.

-Posso seguir em paz?!

-Construa a sua paz. Sou pequeno. Não posso oferecê-la a você… Agora vai…

Obedeceu. Deu-lhe as costas e foi assim triste, amargo e vazio. Chutando pedras como quem desistiu de viver e ainda assim vive.

O outro ficou ali só, parado, inteiro e forte… Inatingível. Frio. Murmurando consigo mesmo:

-Talvez a minha página ainda esteja aqui aberta… Precisando que você seja forte o bastante para ficar mesmo quando eu te peço para partir.


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Eu também sou colunista de outros blogs, dá um pulinho lá para conferir: Que Me Transborde / Superela /  Recalculando a Rota.

Hugo Ribas

Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

7 comentários em “O nosso tempo passou

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