hugo ribas solidoes minhas
Textos do Hugo

Solidões minhas

Eu vi milhões de solidões refletidas no espelho do mundo. Todas elas sorriam. Estranhei. Nunca vi solidão feliz. Olhei com mais atenção, então percebi que o riso não passava de uma grande farsa. Elas não sorriam com verdade. As solidões continuavam como sempre foram: tristes e amarguradas, disfarçadas de alegria.

Aos poucos fui me dando conta de que todas elas eram muito semelhantes em seus vazios… Tive a impressão de que o mundo não passava de uma grande passarela onde modelos desfilavam, fartos de belezas forjadas. Eram todos iguais nas ausências de essências. Eram todos irmãos na fartura de aparências. Faltava-lhes verdade. Sobrava-lhes infelicidade. Solidões a desfilar feito produtos de quinta: Aparentemente belos e bem produzidos, mas confeccionados à base de material podre. Perderam-se no próprio vazio.

Vez ou outra vejo-me tão perdido e vazio e sozinho quanto eles…

Engana-se aquele que vê apenas doçuras raiando nesses olhos que a vida me deu. Sou filho da contradição. Existem também muitos ódios, lodos e desesperos trancados aqui dentro. Posso libertá-los a qualquer momento, basta uma decisão. Leio-me através de palavras que esboçam o que sou, o que guardo, o que sinto… Esboços… Rascunhos… Algo que ainda não é. Então há muito a ser descoberto. Há muito a ser lapidado

Quando vejo as solidões tão sozinhas, penso que a nada pertenço. Nem a mim mesmo. Nada sei a meu respeito, pouco me recordo. Tudo o que lembro são fragmentos. Pedaços de sonhos que estão vagando por aí sem qualquer busca por encaixe. Às vezes eles me encontram e preenchem algum espaço vazio em mim, mas raramente fazem sentido… E isso é muito bom. Já não sinto mais aquela necessidade insana de buscar definições que me traduzam.

Faltam-me pedaços que desconheço.

Não sei como eles são, nem o que significam, muito menos quando foram tirados de mim. Sei somente que foram amputados num tempo que a memória não alcança. Pode ser até que nunca tenham feito parte de mim. Talvez eu seja isso: Um quebra-cabeças cujas peças essenciais nunca foram confeccionadas. Uma alma cheia de buracos. Um quase corpo. Confesso que há um certo prazer nessa incompletude toda. Há beleza na imperfeição… Principalmente quando a imperfeição está na alma. Aconchego-me nessa ausência de fragmentos de mim, como se nela eu pudesse finalmente me encontrar e transbordar.

Procuro-me no resto de alma refletido no espelho, mas há pouco de mim nesse reflexo que desconheço. Nos olhos que, segundo dizem, são meus, há somente o transbordar de farsas e personagens que fui construindo ao longo do tempo. Letras, frases e versos que traduzem algo que sou por meio de vozes que não são minhas. Traduções estas que pouco entendo e que, na maioria das vezes, não correspondem ao texto original. Desconheço-me.

Estou dentro do lugar onde ninguém jamais esteve.

Estou no sopro que há entre o agora e o que já foi. Sim, aqui neste lugar que não é hoje nem ontem, existe um vácuo de saudade cujos ecos posso ouvir atentamente. O tempo mata tudo o que existe, restando apenas ressonâncias de tudo o que já não é, sentimentos a esmo, saudades que flutuam nesse nada entre o passado e o presente. Eu gostaria de ter o poder de congelar o tempo, mas sou fraco. No espaço de um átimo de segundo tudo se perderá.

Escuta?! Está ouvindo esse eco de versos desencaixados? Ao contrário dos ecos verdadeiros que aos pousos se esvaem no mundo, esse só faz aumentar. Está aqui. Você pode ouvir?! É algo de mim querendo alcançar-te a alma. É o inexplicável. Aquilo que nem as palavras conseguem definir. Inútil tentar. Você não ouve, não sente, não toca… Talvez porque nem eu consiga entender-me por completo. Às vezes penso que não é uma questão de entender, mas de se entregar. E da arte da entrega eu nada sei. 

Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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