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Textos do Hugo

Retrato virado – um conto sobre saudade

Ali no canto do quarto havia um criado-mudo cujas gavetas guardavam o sussurro de um vazio. Nada além disso. Algo por sobre o móvel chamava a atenção: Um porta-retrato deitado e virado para baixo, cobrindo a fotografia. Isso foi tudo o que Adelaide, a viúva massacrada pela saudade, deixou para trás. Gavetas vazias e um porta-retrato virado para baixo. Não se sabe onde ela está. Sumiu. E sumiu assim mesmo da noite para o dia. Não deixou nem um bilhete. Dizem que o retrato virado esconde o riso do falecido marido, mas ninguém tem coragem de verificar. Dizem também que ela sofria muito de saudade. Dizem muitas coisas… 

Pouco antes de desaparecer, Adelaide concluiu que ela própria já não era mais gente, mas sim uma coisa qualquer movida à base da falta que sentia. Era jornalista, jovem, não tinha nem trinta anos e já era viúva. Desde cedo, muito cedo, teve de sucumbir à finitude. Já estava acostumada. Tudo o que começa tem fim. Morreram pai, mãe, irmãos, namorados e até o marido. Todos os que ousaram amá-la morreram.  Essa era a sua sina: Bastava ser amada por alguém e esse alguém morria. Não teve boca pra reclamar, nem lágrima pra chorar, só teve alma pra doer. E doeu muito, mas ela aguentou calada, pois tinha manias de dignidade. Considerava o choro como verdadeira indecência. 

Ninguém sabe onde a viúva foi parar. Tornou-se lenda, pó. Vai sumir também da memória dos que ficaram, pois nunca foi amada por eles, do contrário já estariam mortos. Já dizia seu falecido pai: “Permanecem vivos na lembrança somente os amados e odiados. Os outros passam despercebidos.”

Não deixou carta de despedida.

Restou apenas o rastro de sua ausência e essa sensação de uma vida inacabada, fuzilada pela falta que ela sentia. Não se sabe se ela morreu ou se apenas sumiu De qualquer modo sumir é também morrer. Adelaide, a viúva, dissipou-se. Foi embora assim sem adeus. Adelaide sumiu. E dela só restaram as matérias que produziu para o jornal onde trabalhava. Seu tímido legado. Dizem que ela não conseguia lidar com as impermanências da vida, tanto que ficou obcecada pela aflição que a ausência é capaz de causar. Dedicou-se a escrever sobre pessoas desaparecidas.  A última matéria escrita foi sobre a mulher que conheceu no saguão da rodoviária. A senhora baixinha e rechonchuda interceptou-a no meio da multidão, mostrou-lhe a foto de uma criança e perguntou-lhe:

-Você já viu esse menino aqui?! Ele é meu filho! Entrou ali no banheiro e nunca mais voltou. Sumiu. Isso já tem pra mais de quinze anos.

Adelaide fez que não e continuou andando, mas antes de se perder no mundo de gente, olhou para trás sem saber a razão exata para aquilo. Viu aquela mesma mulher parada no meio do saguão, olhando fixamente para a porta do toalete. Havia naquele ato uma esperança insana, uma crença de que o filho sairia pela porta e explicaria que o motivo de sua demora teria sido a bexiga muito cheia.

-Esperou muito? -perguntaria ele, homem feito, ajeitando o ziper da calça jeans.

-Nada! -tornaria a mãe com absoluta naturalidade. -Nem vi o tempo passar. Aproveitei pra tomar um café com leite enquanto isso. -depois voltariam juntos para casa e continuariam a vida exatamente de onde pararam.

A viúva conviveu por longos dias com a lembrança da simplória mulher que refletia um aspecto de seus próprios desvarios. Ambas eram vítimas da saudade.

Adelaide amou.

E como todos os que perdem o amor de vista, ela quase se atirou no abismo da loucura. Às vezes achava até que já tinha se atirado e que o resto da sua vida seria aquela queda livre no desatino da própria saudade. A dor jamais cessou.

Quando o perdeu, Adelaide sucumbiu à primeira crise de abstinência do passado. A falta era tanta que contratou os serviços de um acompanhante qualquer para tentar forjar um pouco daqueles deleites que jamais esqueceria. Não queria só o prazer de uma noite banal, queria reviver um resquício das noites ardentes que não voltariam nunca. Então fez questão de montar o cenário da primeira noite em que amou com o corpo, com o gozo e com a alma.

Pouco antes do prestador de serviços chegar, Adelaide forrou a cama com o mesmo lençol, trocou a fronha do travesseiro e colocou o mesmo edredom dobrado ao pé da cama. O ritual de forjar o passado fazia a saudade doer ainda mais, muito mais. E Adelaide tinha um certo prazer nessa dor, um “aconchegar-se” na própria ilusão. Fechou o quarto para que pudesse ver o próprio reflexo no espelho comprido, pregado atrás da porta. Avaliou o cabelo, o sapato baixo, a saia xadrez cor de vinho e o lenço negro no pescoço.

Tudo exatamente igual à primeira noite.

Avaliou se o acompanhante atendia a todos os critérios básicos de beleza e higiene. Aprovou. Depois de explicar para ele como deveria proceder para que a farsa fosse o mais semelhante possível do passado, Adelaide se perguntou se tudo aquilo não seria como ficar parada no meio de uma rodoviária olhando a porta de um banheiro… Em respeito ao falecido marido, a viúva virou o porta-retratos pra baixo para que ele não presenciasse a ressurreição do passado. Ela estava prestes a viver sua farsa. Nada mais que uma farsa. Um ritual. Isso era tudo o que restava para ela: Farsa e saudade. Excitava-se e doloria-se.

Antes de esconder-se no breu do “para sempre”, Adelaide penou muito na mão de pesadelos cruéis. Quando a madrugada nascia, ela acordava de súbito. E então esses arroubos noturnos tornaram-se rotina desde a última vez em que esteve com ele. Bastava a madrugada brotar para Adelaide acordar de um sonho ruim… Os fragmentos do tal sonho rastejavam ao pé da cama. A viúva podia vê-los na penumbra, cheios de saudade. No sonho recorrente Adelaide viajava no tempo e retornava ao lugar onde o conheceu, mas nunca o reencontrava. 

Não fazia isso só no sonho, fazia também todas as tardes quando o sol agonizava. O ritual era sempre o mesmo: Adelaide saía do jornal e dava um pulo na padaria. Acomodava-se no banco à beira do balcão, aquele mesmo banco onde esteve quando o viu pela primeira vez. Então pedia seu café, tirava do bolso um papel qualquer e rabiscava algumas matérias.

Deleitava-se na sensação de voltar no tempo…

Esboçava um sorriso triste, lembrava-se do passado e de como tudo aconteceu de maneira inusitada: Minutos antes de eles se cruzarem, Adelaide escreveu uma crônica qualquer sobre o balcão. Naquela ocasião ela usava um sapato baixo, calça xadrez cor de vinho e lenço negro no pescoço. Pouco depois de encerrar o ponto final, releu o próprio texto e o detestou. Resolveu destruí-lo. Fez do papel velho uma bolinha. Fez isso com raiva. Depois pagou o café e saiu desembestada pela rua, bolinha na mão.

Estava cansada de tudo. Cansada de tanta saudade.

Adelaide era uma pessoa naturalmente cansada, sempre foi assim desde que nasceu. (Dizem que ao nascer o bebê Adelaide negou-se a chorar justamente para não se cansar muito. Em vez disso optou pelo sono. Nasceu dormindo, dizem.) A raiva que tinha do mundo, naquela tarde, era a mesma que tinha quando nasceu. Rejeitava a efemeridade da vida. Por vezes achava que nascer, por si só, já era uma violência. Não gostava de se sentir obrigada a conviver consigo mesma. Para ela o existir beirava a banalidade. Afinal de contas, que sentido tinha amar, sonhar, sofrer e até mesmo viver, se mais cedo ou mais tarde tudo se tornaria pó?! Não precisava de motivos para ter sanha da vida. Simplesmente nascera farta do existir. Já não aguentava mais aquela condição de confinamento, pois era assim que se sentia: Confinada nela mesma.

Então, num ato intempestivo, Adelaide atirou a bolinha no mundo. Atirou com a mesma vontade que lançaria pedras em quem criou a vida humana. A bolinha de papel acertou o olho dele, o rapaz que atravessava a rua. O moço quis trucidá-la, claro. Dois ódios se encontraram e se encantaram um pelo outro. Naquela mesma noite eles se amaram com o corpo, com o gozo e com a alma. E naquela mesma noite ela descobriu que se tornaria refém da saudade que um dia sentiria.

Adelaide nunca tinha sentido o amor e quando o sentiu completou-se.

É claro que não percebeu isso de imediato, porque amar era uma coisa nova para ela. Não gostava de assumir isso nem para si mesma. Todos os apaixonados são reféns e ela detestava essa ideia de ser refém do que sentia. Uma vez apaixonada, tornaria-se dependente do seu objeto de desejo. Amor é feito amarra. Quando se deu conta já estava atada.

A cada novo encontro Adelaide se corroía por dentro, assustada com sua própria vulnerabilidade. Ele era sol, mas ela era sombra. Ele expunha o que sentia sem medo de parecer ridículo e não tinha reserva alguma em se deixar escravizar pelo amor. Ela era escrava do medo e serva da insegurança. Quando estava com ele, Adelaide era inveja também. Invejava aquela coragem de amar sem pudores e de se entregar inteiramente.  E vinha uma dor imensa, arrebatadora. O medo da desilusão. O medo de ter se encantado por uma mentira. Perdeu o controle da situação.

Desesperou-se.

Enfim, era melhor acabar de vez com aquilo tudo antes que lhe doesse a alma. Era melhor colocar um ardido, maldito e definitivo ponto final antes que a dependência ganhasse proporções inimagináveis. Experimentou uma imensidão de contradições! Amor, apego, paixão, inveja, saudade, raiva, ódio, muito ódio, medo, fragilidade, dúvida… Tudo. Absolutamente tudo. Decidiu acabar com tudo, mas fracassou. Entregou-se.

Todos os dias pela manhã Adelaide lembrava-se da última vez em que o viu.  Na ocasião havia uma avenida entre os dois. E essa avenida crescia cada vez mais à medida que ele se distanciava dela. Ambos os destinos estavam separados pela avenida… Momentos antes estavam unidos, perfeitamente conectados, mas ele teve que partir. Despediu-se com displicência. Primeiro ele a beijou na testa, depois prometeu encontrá-la ao cair da noite e virou as costas. Atravessou a rua. Tinha passos livres como quem leva uma vida sem amarras. Adelaide custava a se acostumar com o jeito desamarrado que ele tinha de viver. Aliás, ela até se irritava com aquele modo simples de lidar com a despedida. Num piscar de olhos o momento presente findou, dissipou-se. Adelaide quis agarrar aquele último instante, mas era fraca ante o tempo.

O presente não existe…

Ele é apenas o sopro do nada entre o passado e o futuro, pura ilusão. Sempre que ele partia, Adelaide sentia-se impelida a abraçá-lo forte. Estava certa de que era amada e sendo assim, mais cedo ou mais tarde ele morreria. Mirou a figura que se afastava, mas ele se dissolveu no além da cidade, como tinta fresca em tela branca, misturando-se, tornando-se parte do todo… Sumindo. Então Adelaide começou a brigar com o medo. Aquele tipo de medo que só os apaixonados sabem sentir. Medo dos desencontros, dos riscos ou de uma separação definitiva.

Voltou para casa com o peito esmagado por angústias.

Destrancou a porta com as mãos trêmulas, cheias de saudade. Encontrou no meio da sala o marido sentado em sua poltrona, sorrindo para ela com aquele jeito sereno de sempre. Mansidão abundante. Por um instante desejou que ele morresse, pois já estava farta. Estava sempre assim, farta de tudo. Casou-se achando que o amava, mas estava completamente enganada. Depois que amou com o corpo, com o gozo e com a alma, descobriu que aquilo que vivia não era casamento, nem amor… Aquilo era nada.

Então, quando a morte súbita acometeu seu marido e transformou Adelaide em viúva, ela chorou muito de saudade. Os poucos colegas pensavam que ela chorava pela perda repentina e irreparável do companheiro, mas na verdade Adelaide chorava pelo amante que sumiu prometendo encontrá-la ao cair da noite. Ele atravessou a rua e não cumpriu a promessa. Ele nunca mais voltou. Simplesmente desapareceu… E a viúva aproveitou a morte do esposo para chorar o sumiço do amante.

Sempre que estava só e triste, Adelaide se lembrava do funeral e do modo compassivo com que era olhada pelos outros. Estavam todos condoídos de sua viuvez. Então ela se ria toda. Esse era o único momento em que Adelaide, a viúva, ria de verdade. No mais estava sempre reclusa, nutrindo-se do fel de sua saudade. Adelaide penou muito na mão da saudade. Vestia o negro do luto assim como as mulheres antigas, não por respeitar a dor da perda, mas para minguar o riso de quem quer que se aproximasse.

Adelaide nunca se deu muito bem com o próprio destino.

Ele sempre se repetia. Bastava ser amada por alguém e esse alguém morria. Do nascimento ao sumiço, os amores de Adelaide foram lesionados impiedosamente. Alguns destinos optam pelo sadismo como rota para as vidas que acolhem. Há quem possa discordar, mas Adelaide estava convicta de que o seu próprio destino deleitava-se com seus sofrimentos. Convenceu-se disso quando o amante sumiu depois de atravessar a avenida. Ninguém sabe onde ele foi parar. Não se sabe quem era. Nunca deu o nome, nem endereço. Tudo o que ele fez foi amá-la. Depois disso a vida de Adelaide se transformou num incansável ritual. E nesse ritual Adelaide mergulhava nas lembranças que tinha, afundava-se no abismo do pretérito e afastava-se de si mesma.

Muitas foram as tardes em que a viúva caminhou até a avenida onde estivera com ele pela última vez e ficou ali parada mirando a vida, alheia ao mundo. Tornara-se qualquer coisa movida à base da falta que sentia do amante. Congelada estava no tempo. Às vezes Adelaide supunha que ele teria morrido também, mas isso não era o bastante para abrandar a amargura que se instalara em seu peito. Não há saudade que suporte a falta de um corpo para velar, um caixão para enterrar e um túmulo para limpar de vez em quando. Faltava um defunto para o verdadeiro luto de Adelaide.

Tudo o que ele deixou foi aquela ausência estranha, uma meia morte.

Desaparição. Quando a esperança era muita, tanta a ponto de doer, Adelaide negava a possibilidade da morte e pensava consigo mesma: “Será que ele está vivo por aí fingindo amar outras pessoas?! Teria sido eu enganada por ele?!” E seu amor pelo amante era tamanho que precisava acreditar nessa hipótese para não se convencer de que ele estava morto. Recusava-se a entregá-lo à finitude. Desgastava-se de tanto pensar. Infernizava-se. 

Infernizou-se tanto que certo dia saiu desembestada pela rua e foi parar na padaria, aquela onde sempre escrevia suas crônicas e matérias. E lá ficou. E lá escreveu… Fez do papel uma bolinha. Depois caminhou pela cidade, farta da própria saudade.  Atirou a bolinha no mundo, mas a bolinha não acertou o olho de ninguém. Acertou o mundo. O papel desapareceu. Nesse dia Adelaide sumiu. Da viúva restaram apenas um criado-mudo, gavetas vazias e um retrato virado.


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Enfim, eu também sou colunista de outros blogs, dá um pulinho lá para conferir:Superela /  Recalculando a Rota.


Hugo Ribas é pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Criador deste blog e colunista do blog Que Me Transborde, adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e pensamentos se fundem num texto só. Nasceu em Jundiaí - SP e mudou-se para São Paulo - SP aos 16 anos, onde se formou em Design Gráfico e cursou teatro pelo Teatro Escola Macunaima. Apresentou peças de Gianfrancesco Guarnieri e Friedrich Dürrenmatt.

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