hugo ribas amanha eu morro

Amanhã eu morro

O meu livro “Amanhã eu morro” ficou entre os 10 finalistas do Prêmio Jabuti 2021, na categoria Romance de Entretenimento! Isso foi uma alegria imensa para mim!

Leia abaixo apenas um trechinho do meu livro, e se quiser adquirir um exemplar, basta clicar neste link: https://www.editorapatua.com.br/produto/228033/amanha-eu-morro-de-hugo-ribas

PRESSÁGIO

Eu peço desculpa, moço, pelo jeito bronco que vou contar essa história, mas é que a estrada do meu destino teve mais sangue do que água doce. De uma coisa eu te dou certeza, o que vou contar é cheio de boniteza, mas há um tanto de tristeza, então, não segura a lágrima, não… É bonito de ver uma pessoa chorar. Isso é coisa de alma. Só não chora quem perdeu a alma.

Não se assuste com as passagens feias que posso contar vez ou outra, porque eu acredito muito numa coisa: Tem feiuras muito bonitas. Essa história é como aquela flor que nasce na lama, sabe qual é?! Eu esqueci o nome dela, não sou bom de palavra. Não sou poeta. Ah, sim, lembrei, é a flor de lótus. Ouvi dizer que essa é a flor mais bonita do mundo. Contam que a beleza dela se alimenta de lodo sujo.

Para tudo existe um ponto de partida, um raiar. Quando tenho que arrancar a alma dum infeliz, por exemplo, primeiro eu sinto a alma da minha boa e velha espingarda. Faço um carinho sagrado nela como se fosse acender vela pra santo. Esse é o começo de tudo. Depois aponto. Tenho que mirar direitinho, senão arranco meia alma. E eu quero é tirar a alma inteira. Ajusto a arma muito bem apoiada no corpo e alinhada com meu olho esquerdo.

Há um silêncio antes da alma sumir. Ninguém escuta.

Puxo o gatilho.

A morte começa.

Assossega esse seu coração, pois o raiar de tudo isso não é a morte, nem a arma, nem o sangue. O começo de tudo é Esmeralda, a cigana. Pele morena, olho verde, alma feita de música. Mulher que dança fácil como o passarinho avoa. Nunca vi coisa tão bonita na minha vida, moço. Ela rodava em volta da fogueira e se movia sedutora feito uma sereia da mata. Tive ela nos meus braços. E não foi numa noite só, não!! Era noite que não acabava mais. Quando o sol morria e a fogueira do cigano se acendia, eu me embrenhava naquela mata só pra ver ela dançar. Depois que ela dançava, a gente se amava na relva. E não era amor pra vida toda, não. Era amor da noite mesmo, amor do corpo, amor do fogo.

E foi na frente do fogo,

era fogo alto,

que ela botou uma pedra verde no meu pescoço,

presa num cordão de couro.

Era a pedra da vida.

“Enquanto essa pedra ficar viva, tu vive. Quando ela quebrar, tu morre.”, foi o que ela disse.

Eu não tive medo, não. A morte nunca me botou medo. Aquilo lá me deixou foi curioso. Perguntei se eu ia morrer na hora ou se ia demorar muito.

“Depois que a pedra quebrar, tu morre em três dias.”

E morro do quê?! Era isso que eu me perguntava. Esmeralda, a cigana, nunca me respondeu. Foi-se embora com seu povo e deixou a pedra aqui no meu pescoço pra me garantir a vida até hoje.